Trigo tropical avança no Cerrado: Saiba como o cultivo do cereal transforma o mapa dos grãos 

Wander Aguilera Almeida
Adriana Montesa Por Adriana Montesa
7 Min de leitura

O trigo, tradicionalmente associado ao clima frio do Sul do país, começa a ocupar áreas do Cerrado. Wander Aguilera Almeida, empresário que atua na intermediação de compra e venda de grãos, avalia que essa expansão cria uma nova frente de negócios em regiões até pouco tempo dominadas pela soja e pelo milho. O trigo tropical, antes experimentado esporadicamente, tornou-se parte integrante da estratégia de produção dos agricultores do Brasil Central.

O movimento tem raízes em décadas de pesquisa. Cultivares adaptadas ao calor e às condições do Cerrado, desenvolvidas por instituições como a Embrapa, permitiram o cultivo do cereal em estados como Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal e Bahia, tanto em áreas irrigadas quanto em sistemas de sequeiro, semeados logo após a soja.

A expansão é benéfica para o país, que atualmente depende de importações para abastecer parte significativa do consumo interno. Este artigo visa esclarecer as razões pelas quais o trigo prospera no Cerrado, destacando as vantagens e desafios inerentes à sua cultura. Ademais, busca-se também discutir as implicações dessa mudança para a comercialização do cereal.

Por que o trigo chega ao Brasil Central?

O Brasil é um grande consumidor de trigo, superando sua produção interna e dependendo, portanto, da importação, principalmente da Argentina, de uma parcela significativa do cereal necessário à sua indústria de moagem. Essa dependência sujeita moinhos e consumidores a oscilações cambiais, de preços internacionais e de oferta nos países vizinhos. Wander Aguilera Almeida ressalta que, nesse cenário, cada tonelada produzida próxima aos centros consumidores reduz a exposição da cadeia a fatores que estão fora do controle do mercado interno.

O Cerrado apresenta condições favoráveis para a ampliação da produção. A colheita ocorre em um período distinto do Sul, em que a baixa umidade do inverno reduz a incidência de algumas doenças e a qualidade do grão, em muitos casos, atende às exigências da indústria de panificação.

A cultura, por sua vez, também se encaixa no sistema de produção das fazendas. Ao analisar tal movimento, Wander Aguilera Almeida destaca que o trigo pode ser plantado na mesma área que a soja, ao lado do milho e do sorgo, ampliando as opções dos produtores para a segunda safra e diversificando as fontes de renda das propriedades.

Os efeitos da expansão para o produtor e o mercado

A chegada do trigo a novas regiões altera a dinâmica do mercado em diferentes pontos da cadeia:

  • Diversificação da segunda safra: o cereal se soma ao milho e ao sorgo como alternativa após a soja, ajudando a distribuir riscos climáticos e de preço entre culturas com ciclos e mercados distintos.
  • Proximidade com a indústria: moinhos instalados no Centro-Oeste e no Sudeste podem se abastecer com grão regional, reduzindo custos de frete em comparação com o trigo transportado do Sul ou importado.
  • Benefícios agronômicos: a rotação com gramíneas, como o trigo, contribui para a palhada do plantio direto e ajuda a interromper ciclos de pragas e doenças associados à sucessão contínua de soja e milho.
  • Calendário de comercialização diferenciado: a colheita no Cerrado ocorre antes da safra sulista, o que pode permitir vendas em um período de menor oferta interna e preços potencialmente mais favoráveis.
Wander Aguilera Almeida
Wander Aguilera Almeida

A combinação desses fatores explica o interesse crescente pela cultura. Em sua análise, Wander Aguilera Almeida, responsável pelo acompanhamento das safras de grãos e da evolução das cotações, destaca que a presença de compradores próximos é fundamental para a sustentação da expansão, uma vez que o trigo deve atender aos rigorosos padrões de qualidade estabelecidos pelos moinhos.

Os desafios que ainda limitam a cultura

O trigo tropical ainda enfrenta obstáculos significativos. No sistema de cultivo de sequeiro, a produtividade depende da regularidade das chuvas no fim do verão. Uma semeadura tardia pode expor a lavoura à falta de água durante o desenvolvimento. Em anos de clima irregular, como o previsto para a safra 2026/27, esse risco se torna mais relevante.

A qualidade também exige atenção. Os moinhos realizam a classificação do trigo conforme características específicas, como a força do glúten e o teor de umidade. Os lotes que não atenderem aos padrões estabelecidos podem ser destinados à produção de ração animal, com preços mais competitivos. Para Wander Aguilera Almeida, o conhecimento antecipado das exigências do comprador auxilia o produtor na escolha de cultivares e manejo compatíveis com o mercado de destino.

A estrutura de armazenagem e de logística representa um desafio adicional a ser enfrentado. Dado o fato de que a colheita do trigo ocorre em um momento no qual uma parte dos armazéns ainda está armazenando milho, a disponibilidade de espaço e a organização da recepção devem ser planejadas com antecedência.

Uma nova cultura no calendário do Cerrado

Após uma análise cuidadosa, é evidente que o avanço do trigo tropical demonstra o potencial transformador da pesquisa agrícola e da busca por diversificação na geografia da produção de grãos no Brasil. O cereal, que anteriormente parecia restrito ao Sul, passa a integrar o sistema produtivo do Brasil Central, ocupando a janela após a soja e abastecendo moinhos mais próximos.

O crescimento sustentável da cultura depende de fatores como a produtividade estável, a qualidade compatível com os padrões da indústria e canais de comercialização organizados. O empresário do ramo do agronegócio, Wander Aguilera Almeida, por sua vez, observa que o desenvolvimento desse mercado regional tende a ser gradual e está diretamente ligado à confiança entre produtores e compradores.

Se a expansão se consolidar, o país pode reduzir parte da dependência de importações e oferecer uma nova alternativa de renda para o produtor do Cerrado, em um movimento que reforça a capacidade de adaptação da agricultura tropical brasileira.

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