Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista, examina que, quando alguém próximo vive um relacionamento abusivo, a forma de se aproximar pode ser tão importante quanto a decisão de ajudar. Frases bem-intencionadas, como “por que você não vai embora?”, tendem a gerar vergonha e afastamento, enquanto uma escuta calma e sem cobranças mantém a porta aberta.
Saber o que dizer e o que evitar dizer é uma forma de acolhimento social que fortalece a rede de apoio comunitário e respeita o tempo de cada mulher. Mais do que dar respostas, o essencial é mostrar disponibilidade, validar o que ela sente e lembrar que não está sozinha.
Por que a forma de ajudar importa tanto quanto a vontade de ajudar?
Quem observa de fora uma situação de violência doméstica ou de abuso emocional costuma sentir urgência. Surge a vontade de aconselhar, de decidir pelo outro e de apontar o que parece óbvio. Esse impulso nasce do cuidado, mas, se não for acompanhado de sensibilidade, pode produzir o efeito contrário ao desejado.
Isso acontece porque quem vive um relacionamento abusivo já convive com culpa, vergonha e medo de ser julgada. Muitas vezes, a pessoa passou meses ou anos ouvindo que o problema está nela, de modo que qualquer comentário que soe como cobrança confirma esse sentimento. Assim, a maneira de oferecer ajuda determina se a pessoa se sentirá segura para voltar a conversar ou se escolherá o silêncio.
Frases que costumam afastar, mesmo quando bem-intencionadas
Algumas frases aparecem com frequência e, embora nasçam da preocupação, costumam machucar. Perguntar: “por que você não vai embora?” sugere que a decisão seria simples e transfere para a mulher a responsabilidade pela situação. Dizer “eu, no seu lugar, já teria saído” ignora o fato de que ninguém conhece por dentro a complexidade do que ela vive, incluindo medo, dependência emocional, questões financeiras e preocupação com os filhos.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que comentários como “você tem que se valorizar mais” ou “eu avisei” também tendem a gerar vergonha, pois reforçam a ideia de que a pessoa falhou. O mesmo vale para ultimatos, como “se você voltar, não me procure mais”, que podem fechar uma das poucas portas de apoio que ainda existiam. Além disso, minimizar o que foi contado, com expressões como “todo casal passa por isso”, desvaloriza a experiência e dificulta que a pessoa volte a falar sobre o assunto.
O que dizer: acolher, validar e oferecer presença
A atitude mais útil costuma ser a mais simples: escutar sem interromper e deixar claro que a pessoa não está sozinha. Frases como “eu acredito em você”, “você não merece ser tratada assim” e “estou aqui quando você precisar” transmitem acolhimento sem pressionar por decisões imediatas. Essa postura devolve à mulher a sensação de ser ouvida e levada a sério, algo que muitas vezes lhe foi negado dentro do relacionamento.
Como aponta Taiza Tosatt Eleoterio, validar o que a pessoa sente é uma das formas mais poderosas de apoio. Isso significa reconhecer o medo, a confusão e a ambivalência como reações compreensíveis, sem tentar corrigi-las. Do mesmo modo, perguntar “como posso ajudar?” em vez de oferecer soluções prontas, devolve o protagonismo à mulher e contribui para o empoderamento feminino, pois reforça que ela é capaz de decidir o que é melhor para a própria vida.
Respeitar o tempo e as decisões de cada mulher
Sair de um relacionamento abusivo raramente acontece de uma só vez. Muitas mulheres precisam de tempo para reunir segurança, recursos e apoio e, nesse percurso, podem voltar atrás, hesitar ou mudar de ideia. Quem apoia precisa compreender que isso faz parte do processo e não representa fracasso nem falta de coragem.
Para Taiza Tosatt Eleoterio, respeitar o ritmo da mulher não significa permanecer omisso ou concordar com a situação. Significa manter o vínculo e a disponibilidade, mesmo quando as decisões tomadas parecem difíceis de compreender. Vale lembrar que a mulher conhece os riscos do próprio contexto melhor do que qualquer observador, e que pressioná-la a agir de forma precipitada pode, em alguns casos, aumentar o perigo. Por isso, a paciência é uma forma de proteção, e a constância da presença faz diferença quando ela decidir buscar ajuda.
Como fortalecer a rede de apoio sem assumir o lugar de profissionais?
Quem apoia uma mulher em situação de abuso não precisa, e não deve, assumir sozinho todas as responsabilidades. O papel de amigos, familiares e vizinhos é oferecer escuta, presença e informação, enquanto o acompanhamento especializado cabe a profissionais e serviços preparados para isso. Compreender essa divisão evita sobrecarga e também protege quem está sendo apoiada.
No entendimento de Taiza Tosatt Eleoterio, uma rede de apoio comunitário bem estruturada funciona melhor quando cada pessoa sabe qual é a sua contribuição. Alguém pode oferecer companhia em um momento difícil, outra pode ajudar com informações sobre serviços de assistência social e acolhimento, e outra pode apenas estar disponível para uma conversa sem julgamentos. Além disso, informar sobre a existência de serviços especializados, sem forçar o uso deles, amplia as possibilidades da mulher no momento em que ela se sentir pronta.
Presença que acolhe e não pressiona
Ajudar alguém que vive um relacionamento abusivo exige mais escuta do que conselhos, e mais paciência do que respostas rápidas. Cuidar das palavras, evitar julgamentos e oferecer presença constante criam um ambiente em que a pessoa se sente segura para pedir ajuda quando estiver pronta.
Sob a perspectiva de Taiza Tosatt Eleoterio, quem deseja apoiar deve lembrar que o mais importante é permanecer por perto, com respeito e sem cobranças. Afinal, pequenos gestos de acolhimento, repetidos ao longo do tempo, fortalecem a confiança, reduzem o isolamento e ajudam a mulher a reconhecer que existe um caminho possível, no ritmo e na forma que fizerem sentido para ela.