Quando a cidade cresce e o cemitério não cabe mais: Tiago Schietti sobre urbanismo, solo cemiterial e planejamento territorial

Tiago Schietti
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Tiago Schietti parte de uma constatação que poucos urbanistas e gestores públicos têm coragem de enfrentar: as cidades brasileiras cresceram sem planejar onde vão enterrar seus mortos. O solo cemiterial, historicamente tratado como uma questão de segunda ordem no planejamento urbano, tornou-se um problema real e crescente em municípios de todos os portes. Cemitérios lotados, expansão urbana desordenada, pressão sobre áreas verdes e ausência de políticas territoriais específicas para o setor formam um conjunto de desafios que esta análise se propõe a examinar. 

Entender essa tensão é fundamental para quem pensa a cidade de forma séria. Se o tema parece distante da sua realidade, continue lendo e descubra por que ele está mais próximo do que imagina.

A cidade que cresce e o cemitério que fica para trás

Durante décadas, cemitérios foram implantados nas periferias das cidades brasileiras, longe dos centros urbanos e das áreas residenciais consolidadas. O problema é que as cidades cresceram, e o que era periferia virou bairro, o bairro virou centro e o cemitério, antes isolado, passou a ser vizinho de escolas, hospitais, condomínios e corredores comerciais. Conforme expressa Tiago Schietti, especialista em gestão cemiterial, esse processo de incorporação urbana dos cemitérios criou uma série de conflitos territoriais que os planos diretores municipais raramente anteciparam e que hoje demandam soluções criativas e urgentes.

O resultado prático dessa dinâmica é uma dupla pressão sobre o solo cemiterial. De um lado, a demanda por novos sepultamentos cresce com a população. De outro, a especulação imobiliária ao redor dos cemitérios transforma essas áreas em terrenos valiosíssimos, gerando pressão para que sejam desafetados, relocados ou reduzidos. Nesse jogo de forças, o planejamento territorial consistente é a única saída racional, mas também a mais rara.

Por que o solo cemiterial é um tema de urbanismo e não apenas de saúde pública?

A resposta está na forma como o solo cemiterial afeta múltiplas dimensões da vida urbana simultaneamente. Um cemitério ocupa espaço, impermeabiliza o solo, interfere no lençol freático, gera fluxo de pessoas e veículos, demanda infraestrutura de acesso e produz impacto visual e simbólico sobre o entorno. Na perspectiva de Tiago Schietti, tratar o solo cemiterial apenas como uma questão sanitária é uma visão reducionista que explica, em parte, por que tantos municípios brasileiros chegaram a situações de colapso sem ter desenvolvido alternativas estruturadas.

Incorporar o tema ao debate urbanístico significa reconhecer que cemitérios são equipamentos urbanos com lógica própria de implantação, expansão e gestão. Assim como hospitais, parques e escolas exigem zoneamento específico e planejamento de longo prazo, os espaços destinados ao sepultamento precisam ser pensados dentro de uma visão integrada da cidade, levando em conta crescimento populacional, adensamento urbano, disponibilidade de solo e alternativas tecnológicas como a cremação e os sepultamentos verticais.

Tiago Schietti
Tiago Schietti

Quais são as alternativas que o urbanismo oferece para esse impasse?

O debate internacional já produziu algumas respostas interessantes para o problema do solo cemiterial urbano. Cemitérios verticais, que aproveitam estruturas de múltiplos andares para ampliar a capacidade de sepultamento sem aumentar a área ocupada, já são realidade em países como Japão e Coreia do Sul e começam a aparecer timidamente no Brasil. Nesse panorama, como observa Tiago Schietti, essas soluções não são apenas engenhosas do ponto de vista técnico; elas representam uma mudança cultural profunda na relação entre espaço urbano, morte e memória coletiva.

Outras alternativas passam pela revisão dos prazos de concessão de jazigos, pela regulamentação dos ossuários como solução para liberar espaço em cemitérios saturados e pelo incentivo à cremação como política pública de gestão territorial. Cada uma dessas opções tem implicações culturais, religiosas e econômicas que precisam ser consideradas com cuidado. O que não é mais possível é continuar adiando o debate como se o problema fosse resolver-se sozinho com o tempo.

O planejamento territorial como resposta estrutural

Municípios que levam o planejamento territorial a sério já perceberam que o solo cemiterial precisa entrar nos planos diretores com a mesma relevância de outros equipamentos urbanos essenciais. Isso significa projetar a demanda futura por sepultamentos com base em dados demográficos, identificar áreas adequadas para novos cemitérios antes que a pressão urbana as torne inviáveis e criar marcos regulatórios que orientem a expansão do setor de forma ordenada. Na avaliação do empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Schietti, municípios que negligenciam esse planejamento pagam um preço alto mais adiante, seja na forma de crises de capacidade, seja na forma de conflitos territoriais de difícil resolução.

A boa notícia é que o setor funerário brasileiro começa a amadurecer nessa direção. Entidades representativas, gestores públicos mais atentos e empresas comprometidas com a sustentabilidade operacional já travam esse debate com mais consistência do que há uma década. O caminho é longo, mas a consciência de que o problema existe e precisa de resposta estrutural já representa um avanço significativo.

Planejar a morte para melhor gerir a vida

Pensar o solo cemiterial como parte integrante do planejamento urbano não é um exercício mórbido, é um ato de responsabilidade coletiva. Cidades que ignoram essa dimensão acumulam passivos territoriais que comprometem tanto a qualidade dos serviços funerários quanto o desenvolvimento urbano equilibrado. O desafio não é pequeno, mas tampouco é intratável para gestores dispostos a enfrentá-lo com dados, diálogo e visão de longo prazo.

Por fim, como sintetiza Tiago Schietti, a cidade que não planeja onde enterrar seus mortos revela, no fundo, uma dificuldade maior: a de olhar para o futuro com honestidade. Incorporar o solo cemiterial ao debate urbano é, portanto, muito mais do que uma questão técnica. É uma escolha civilizatória sobre o tipo de cidade que queremos construir e sobre o respeito que decidimos, ou não, dedicar a todas as etapas da vida humana.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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