Paulo Roberto Gomes Fernandes aponta que a tensão em torno da segurança energética e ambiental na região dos Grandes Lagos ganhou novos contornos em 2020, quando comunidades de diversas cidades americanas e canadenses passaram a pressionar governos e tribunais pela substituição do oleoduto da Linha 5, que cruza o Estreito de Mackinac.
Naquele momento, a governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, determinou que a Linha 5 permanecesse fechada por tempo indeterminado, mesmo após a Enbridge ter concluído reparos emergenciais em um trecho do oleoduto danificado. O dano, segundo a própria companhia, teria sido causado por interferências externas, possivelmente cabos ou âncoras de embarcações que cruzavam o estreito.
Impactos imediatos e receios da população
O fechamento temporário da Linha 5 trouxe à tona o grau de dependência de diversas cidades em relação ao oleoduto. O duto é responsável pelo transporte diário de grandes volumes de combustíveis e de propano, utilizado principalmente para aquecimento residencial. Representantes do setor energético alertaram que, embora uma paralisação de poucos dias pudesse ser absorvida sem grandes impactos, períodos mais longos resultariam em aumento significativo dos preços e possíveis problemas de abastecimento.
Entidades empresariais locais reforçaram esse diagnóstico ao destacar que milhares de empregos diretos e indiretos dependiam da continuidade da operação. Paulo Roberto Gomes Fernandes expõe que esse ponto foi central para entender por que a pressão popular não se limitou a grupos ambientalistas, mas incluiu comerciantes, gestores públicos e consumidores preocupados com os efeitos práticos do fechamento.
O papel do Judiciário e a escalada do conflito
A disputa rapidamente chegou aos tribunais. O juiz do condado responsável pelo caso determinou a interrupção temporária da operação enquanto aguardava o resultado de novas audiências, nas quais seriam analisadas informações técnicas adicionais. O estado de Michigan sustentou que ainda não havia recebido dados suficientes para avaliar plenamente a segurança do oleoduto, especialmente no que se refere à capacidade da Enbridge de detectar impactos externos em tempo real.
A procuradoria estadual argumentou que, sem informações completas, o governo não poderia cumprir seu dever de proteger a confiança pública e o meio ambiente. Por outro lado, os advogados da Enbridge afirmaram que a empresa vinha compartilhando com as autoridades estaduais os mesmos relatórios técnicos apresentados à agência federal reguladora de dutos, a PHMSA, que havia autorizado a retomada parcial das operações antes da decisão judicial.
Argumentos técnicos e controvérsias ambientais
No centro do debate estavam avaliações divergentes sobre o real risco representado pelos danos identificados no oleoduto. A Enbridge sustentava que os impactos não comprometeram a integridade estrutural dos tubos subaquáticos, considerados robustos e capazes de operar com segurança. Já o estado de Michigan e grupos ambientalistas questionavam a ausência de sistemas capazes de detectar imediatamente choques provocados por objetos externos, classificando essa lacuna como extremamente preocupante.

Paulo Roberto Gomes Fernandes sinaliza que esse embate evidenciou uma fragilidade recorrente em infraestruturas antigas, projetadas em um contexto tecnológico distinto do atual. A dificuldade de conciliar padrões de segurança contemporâneos com ativos construídos décadas atrás tornou-se um dos principais motores da discussão sobre a necessidade de substituição da Linha 5.
A alternativa do túnel e a busca por consenso
Diante do impasse, ganhou força a proposta de substituir o trecho subaquático por um novo gasoduto instalado dentro de um túnel escavado sob o leito do lago. Avaliado à época em cerca de 500 milhões de dólares, o projeto passou a ser visto como solução de longo prazo para mitigar riscos ambientais e reduzir conflitos regulatórios.
A população local, segundo levantamentos apresentados durante o processo, manifestou preferência por essa alternativa em relação à manutenção do oleoduto submerso. Na avaliação de Paulo Roberto Gomes Fernandes, o apoio à solução do túnel demonstrou que parte significativa da sociedade estava disposta a aceitar grandes obras de engenharia, desde que estas oferecessem maior segurança e previsibilidade.
Consequências econômicas e regionais
O fechamento prolongado da Linha 5 foi apontado como potencialmente danoso não apenas para Michigan, mas também para regiões do Canadá e de estados vizinhos dos Estados Unidos. O oleoduto desempenha papel relevante no abastecimento de refinarias e na logística de combustíveis em um corredor estratégico da América do Norte.
Esse argumento passou a ser utilizado por defensores da substituição do oleoduto, que viam no túnel uma forma de preservar a infraestrutura essencial sem abrir mão de padrões ambientais mais rigorosos.
Um debate que moldou decisões futuras
Revisitado em 2026, o episódio de 2020 é interpretado por Paulo Roberto Gomes Fernandes como um ponto de amadurecimento do debate público sobre infraestrutura energética. A pressão exercida por comunidades locais, aliada à judicialização intensa, forçou governos e empresas a repensarem soluções que conciliem segurança, meio ambiente e continuidade do abastecimento.
O caso da Linha 5 sob o Lago Michigan tornou-se referência internacional sobre como conflitos envolvendo oleodutos podem evoluir para propostas estruturais mais robustas. Mais do que uma disputa pontual, aquele momento revelou a transição para um novo paradigma, no qual grandes obras passam a ser avaliadas não apenas por sua viabilidade técnica, mas também por sua capacidade de obter legitimidade social e institucional ao longo do tempo.
Autor: Hanna Beth